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202626/10

Calibração JCSS: certificado, periodicidade e registros

Manutenção e qualidadeAtualizado em 26/10/202629 min de leitura

Um cliente japonês vai auditar a sua fábrica, ou a matriz no Japão enviou um checklist de qualidade. Em algum ponto da lista aparecem o pedido do kosei daicho (校正台帳, cadastro de calibração), de certificados de calibração "com JCSS" e de uma justificativa escrita para cada periodicidade de calibração. Se você compra de um fornecedor japonês, as mesmas palavras aparecem no sentido inverso: certificados com o selo JCSS, etiquetas marcadas com 校正済 (kosei-zumi, "calibrado") e cadastros em Excel.

Nada disso é exclusivo do Japão. É a rastreabilidade de medição da ABNT NBR ISO 9001, somada à orientação internacional sobre intervalos de calibração, aplicada do jeito que as equipes de qualidade japonesas costumam aplicar. Este guia explica o que é o JCSS, como as empresas japonesas decidem a periodicidade, o que um cadastro e um registro de calibração normalmente contêm e o que fazer quando um instrumento sai de calibração reprovado. No fim há um checklist e perguntas para enviar ao lado japonês.

Pontos principais: com que frequência calibrar os instrumentos?
  • Nenhuma lei fixa um único intervalo de calibração para todos os instrumentos. Quem usa o instrumento define o intervalo e registra o motivo.
  • O guia internacional ILAC-G24 / OIML D 10 diz para basear o primeiro intervalo no risco (deriva, severidade de uso, ambiente, exatidão exigida) e para calibrar instrumentos novos com mais frequência no início.
  • O jeito mais simples de revisar intervalos é o método da escada ("staircase"): estender o intervalo quando o erro fica dentro de uma fração definida da tolerância e encurtá-lo quando não fica. Não deixe tudo em "um ano" por padrão.
  • Um certificado JCSS mostra a rastreabilidade aos padrões nacionais de medição do Japão. A decisão de aprovar ou reprovar frente à sua própria tolerância continua sendo sua, e o certificado normalmente não traz a data da próxima calibração.
  • O cadastro de calibração lista, para cada instrumento, o número de identificação, a periodicidade, a data da última calibração, o vencimento e a situação. Os resultados voltam para a revisão dos intervalos.
Sumário
  1. Calibração, verificação e ajuste
  2. Rastreabilidade e como funciona o JCSS
  3. O que a ABNT NBR ISO 9001 exige (item 7.1.5.2)
  4. O ciclo de seis etapas do controle de calibração
  5. Como definir e revisar a periodicidade de calibração
  6. Registros de calibração e etiquetas de situação
  7. O que fazer quando um instrumento reprova na calibração
  8. Lacunas de calibração comuns em auditorias
  9. Checklist: cadastro e registros de calibração
  10. Perguntas para fazer a um fornecedor japonês sobre calibração
  11. Onde isto não se aplica
  12. FAQ
  13. Fontes

Calibração, verificação e ajuste

Manômetro padrão e manômetro em calibração ligados lado a lado para calibração por comparação

Calibração (校正, kosei) é comparar um instrumento com um padrão de referência para saber o quanto a indicação dele está errada. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI) segue a definição internacional: o resultado da calibração vem com uma incerteza de medição declarada, que diz o quanto o valor do erro é confiável.

A calibração só informa o erro. Ela não conserta o instrumento. Conhecendo o erro, você pode corrigir as leituras ou enviar o instrumento para reparo ou ajuste, se o erro estiver fora da tolerância.

Dois termos parecidos costumam ser confundidos com ela. A verificação (検証, kensho) checa se o erro está dentro de um limite especificado, como uma tolerância da JIS (Normas Industriais Japonesas), e dá um resultado de aprovado ou reprovado. O ajuste (調整, chosei) é a intervenção no instrumento para que ele volte a indicar o valor correto quando o erro é grande demais.

Figura 1: Calibração, verificação e ajuste

Os três costumam ser feitos em sequência, mas cada um tem uma finalidade e um resultado diferentes.

KOSEI 校正CalibraçãoComparar com um padrão de referência para achar o erro (tendência) da indicação. O resultado é o erro e a sua incerteza. O instrumento não é alterado.
KENSHO 検証VerificaçãoChecar se o erro está dentro do limite especificado (tolerância). O resultado é aprovado ou reprovado.
CHOSEI 調整AjusteIntervir no instrumento para que ele indique corretamente quando o erro é grande demais. Calibrar de novo depois para confirmar a condição.
Nos procedimentos internos japoneses, a palavra "kosei" costuma designar os três de uma vez. Registre o que foi realmente feito, para que o registro fique claro mais tarde.

Definições: FAQ de Padrões de Medição do METI (geral) e ISO/IEC Guide 99:2007 (VIM).

Em outras palavras, a calibração responde "o quanto este instrumento está errado em relação à referência?" e a verificação responde "ainda podemos usá-lo com esse erro?". O controle de qualidade normalmente precisa dos dois: alguém compara os valores do certificado de calibração com a tolerância da própria empresa e decide se aprova ou reprova.

A calibração não vale só para paquímetros e micrômetros. Termômetros, manômetros, balanças, torquímetros e medidores elétricos entram no escopo sempre que as leituras são usadas para julgar a qualidade do produto.

Rastreabilidade e como funciona o JCSS

Em metrologia, rastreabilidade significa que um resultado de medição está ligado ao padrão nacional por uma cadeia ininterrupta de calibrações. O instrumento do chão de fábrica é calibrado contra um padrão interno mais exato, esse padrão é calibrado por um laboratório externo contra outro ainda mais exato, e a cadeia termina no padrão nacional. O Instituto Nacional de Metrologia do Japão (NMIJ), parte do AIST (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada), chama isso de "cadeia de calibração".

Figura 2: A cadeia de rastreabilidade no Japão

Cada nível é calibrado pelo nível acima, o que liga as leituras do chão de fábrica ao padrão nacional.

Padrões nacionais de mediçãoPadrões de referência do Japão, estabelecidos e mantidos pelo NMIJ (AIST) e outros
Calibração
Instituições de calibração designadasUsam os padrões nacionais para calibrar os padrões dos laboratórios registrados
Calibração
Laboratórios de calibração registrados no JCSSRegistrados após avaliação do NITE. Podem emitir certificados com o selo JCSS
Calibração
Padrões de referência internosBlocos-padrão, termômetros padrão, massas padrão. Base da calibração interna
Calibração interna
Instrumentos do chão de fábricaPaquímetros, micrômetros, termômetros, balanças. Usados para aprovar ou reprovar produtos

A cadeia varia conforme a grandeza medida. Muitas empresas pulam a calibração interna e enviam os instrumentos do chão de fábrica direto a um laboratório externo.

Todo elo da cadeia precisa de uma incerteza avaliada. A explicação do NMIJ trata a incerteza declarada com clareza em cada calibração como condição necessária para a rastreabilidade. Dizer "calibramos contra um padrão superior" não basta. A cadeia só se sustenta quando o registro mostra também com que exatidão cada calibração foi feita.

A mesma ideia vale para as máquinas de medição por coordenadas (MMC), que combinam vários eixos e um apalpador: a exatidão é conferida com um padrão de referência, e esse padrão é ligado a padrões de nível superior.

JCSS e calibração comum

O JCSS (Japan Calibration Service System) é o sistema de rastreabilidade de calibração criado pela Lei de Metrologia (Measurement Act) do Japão. Ele tem duas partes: um sistema que fornece os padrões nacionais de medição e um sistema que avalia e registra laboratórios de calibração. O NITE (Instituto Nacional de Tecnologia e Avaliação) avalia e registra os laboratórios em nome do governo, e a avaliação verifica a conformidade com a ISO/IEC 17025, a norma internacional para laboratórios de ensaio e calibração (no Brasil, ABNT NBR ISO/IEC 17025).

Um certificado com o selo JCSS, emitido por um laboratório registrado dentro do seu escopo registrado, já demonstra por si só a rastreabilidade aos padrões nacionais do Japão. O FAQ do METI diz que, quando um cliente pede a confirmação da rastreabilidade aos padrões nacionais, por exemplo como requisito da ISO 9001, o certificado JCSS sozinho basta e não é preciso anexar um diagrama de rastreabilidade.

A calibração comum, sem JCSS, muitas vezes chamada de ippan kosei (一般校正, calibração geral), é diferente. Para demonstrar o mesmo vínculo, o laboratório ou o fornecedor normalmente precisa apresentar um diagrama de rastreabilidade e os certificados dos padrões usados. O JCSS é voluntário no Japão: cada empresa decide se o usa.

Para quem trabalha no Brasil, o papel mais próximo é o da RBC (Rede Brasileira de Calibração), formada por laboratórios acreditados pela Cgcre/Inmetro conforme a ABNT NBR ISO/IEC 17025. São esquemas diferentes, de países diferentes, e não se deve presumir que um substitui o outro. Se o certificado de um laboratório japonês for apresentado a um auditor ou cliente no Brasil, confirme antes se ele será aceito.

O certificado JCSS é aceito fora do Japão?

Nem todo certificado JCSS é. O JCSS é signatário do ILAC MRA (acordo de reconhecimento mútuo da Cooperação Internacional de Acreditação de Laboratórios) e do acordo regional da APAC, mas só os laboratórios registrados que assinam um acordo adicional e opcional podem emitir certificados com o símbolo de acreditação JCSS combinado com a marca ILAC MRA. Se os certificados forem usados em outro país, procure esse símbolo combinado antes de fazer o pedido ou de aceitar o certificado.

O que a ABNT NBR ISO 9001 exige (item 7.1.5.2)

Para muitos fabricantes, o gatilho direto do controle de calibração é o item 7.1.5.2 da ISO 9001, "Rastreabilidade de medição". Ele se aplica quando a rastreabilidade é um requisito do cliente ou legal, ou quando a organização a considera essencial para dar confiança na validade dos resultados de medição. O Japão publica o mesmo texto como JIS Q 9001:2015, e o Brasil como ABNT NBR ISO 9001:2015.

Figura 3: O que o item 7.1.5.2 da ISO 9001 exige dos equipamentos de medição

Calibrar é só uma parte. Também é preciso identificar, proteger e agir quando um instrumento é considerado inadequado.

a) Calibrar ou verificarEm intervalos especificados ou antes do uso, contra padrões rastreáveis a padrões internacionais ou nacionais. Se não existir tal padrão, manter a base documentada.
b) IdentificarDeixar visível a situação de calibração, por exemplo com etiquetas, números de identificação e um cadastro.
c) ProtegerProteger o instrumento contra ajuste, dano ou deterioração que invalidaria a situação de calibração e os resultados posteriores.
Quando considerado inadequadoDeterminar se os resultados de medição anteriores foram afetados e tomar ação apropriada.

Resumo dos requisitos. Consulte a ABNT NBR ISO 9001:2015 (JIS Q 9001:2015 no Japão) para o texto exato.

O último item é o que as equipes mais deixam passar. Consertar um instrumento que reprovou na calibração não encerra o caso. Também é preciso poder dizer se as peças aceitas com esse instrumento eram mesmo boas. Isso explica boa parte do peso que o controle de calibração tem. A seção sobre calibração reprovada, mais adiante, mostra o que fazer.

A Lei de Metrologia do Japão é outro sistema

Os cadastros japoneses às vezes mostram também kentei (検定, verificação oficial) ou teiki kensa (定期検査, inspeção periódica). Essas exigências vêm da Lei de Metrologia do Japão, não da ISO 9001. Certos instrumentos, como balanças, medidores de água, luxímetros e decibelímetros, precisam ter a marca de verificação oficial quando usados em transações comerciais ou para certificação no Japão, e alguns tipos têm prazo de validade fixo. Balanças não automáticas e massas usadas em transações ou certificações também precisam passar por inspeções periódicas feitas por governos locais.

São obrigações legais dentro do Japão, com finalidade e procedimento diferentes da calibração voluntária da ISO 9001. A sua fábrica no Brasil segue a metrologia legal brasileira, em que instrumentos regulamentados passam por verificação inicial e subsequente conduzidas pelos órgãos da RBMLQ-I (como os Ipem estaduais) sob coordenação do Inmetro; confirme com o Ipem do seu estado se algum instrumento seu está sujeito a isso. Instrumentos usados só para controle interno não precisam da marca de verificação oficial. Se um fornecedor japonês fatura por peso, pergunte se as balanças dele estão sob a Lei de Metrologia.

O ciclo de seis etapas do controle de calibração

Sala de calibração dentro da fábrica, com desempeno de granito e graminho

Seja para montar o controle de calibração pela primeira vez, seja para corrigi-lo depois de um apontamento de auditoria, a lógica é a mesma. Decida o que calibrar, qual a criticidade de cada instrumento, como calibrar, com que frequência, como mostrar a situação e como registrar o resultado. Seguir essa ordem reduz as lacunas.

Figura 4: As seis etapas do controle de calibração

Três etapas montam o sistema. Três se repetem a cada calibração.

Montar o sistema
ETAPA 01Listar os instrumentos no cadastroLevantar todos os instrumentos usados em decisões de qualidade, dar um número de identificação a cada um e lançá-lo no cadastro
ETAPA 02Classificar por criticidadeDefinir o rigor do controle de cada um conforme ele decida ou não a aprovação do produto
ETAPA 03Escolher método e prestadorDecidir por instrumento: calibração interna ou laboratório externo, e se o JCSS é necessário
Operar e revisar
ETAPA 04Definir a periodicidadeEscolher um intervalo inicial que equilibre risco e custo e depois estendê-lo ou encurtá-lo conforme os resultados
ETAPA 05Calibrar, julgar, etiquetarComparar os resultados com a tolerância, decidir aprovado ou reprovado e mostrar a situação
ETAPA 06Registrar e revisarGuardar os resultados como histórico e usar as reprovações e tendências para revisar intervalos e controles

Se a etapa 5 encontrar um instrumento fora da tolerância, investigue o efeito sobre os resultados de medição anteriores.

As etapas 1 a 3 raramente mudam depois de definidas. As etapas 4 a 6 se repetem a cada calibração. Sem um laço que leve da etapa 6 de volta à 4, os intervalos ficam em "um ano por enquanto" para sempre, e o custo de calibração continua sem que ninguém confira se o intervalo está certo.

O escopo também importa. Se você incluir coisa demais, o sistema fica pesado demais para operar. Se incluir de menos, um auditor vai apontar um instrumento e perguntar por que ele não é controlado.

Etapa 1: listar todos os instrumentos no cadastro de calibração

Comece levantando todos os instrumentos de medição da fábrica, e não só os da sala de inspeção. Torquímetros e termômetros usados na linha de produção e manômetros embutidos nos equipamentos também são candidatos. O teste é simples: alguém olha essa leitura para decidir se um produto ou uma condição do processo está OK? Se sim, o instrumento entra no escopo.

Dê a cada instrumento um número de identificação único e lance-o no cadastro. Um kosei daicho japonês típico tem pelo menos estas colunas:

  • Número de identificação, nome do instrumento, fabricante, modelo, número de série
  • Faixa de medição, resolução (menor divisão), local e departamento, responsável
  • Classe de criticidade, método de calibração (interna ou externa), prestador da calibração
  • Periodicidade de calibração, data da última calibração, próximo vencimento, situação atual (liberado para uso, proibido o uso, em reparo etc.)

Veja um exemplo fictício de como três linhas podem ficar:

IDInstrumentoClasseMétodoPeriodicidadeÚltima cal.Próximo venc.Situação
M-0012Micrômetro externo 0–25 mm, inspeção finalAExterna (JCSS)12 meses10/04/202610/04/2027Liberado para uso
T-0105Torquímetro, Linha 2BInterna6 meses01/07/202601/01/2027Liberado para uso
R-0031Termômetro, almoxarifadoCChecagem antes do uso———Somente referência
Exemplo fictício. As colunas e os intervalos variam de empresa para empresa.

Paquímetros pessoais e instrumentos reserva guardados em prateleira são fáceis de esquecer. Se eles puderem ser usados, coloque-os no cadastro. Se não, identifique-os como "não sujeito a calibração" e mantenha-os longe da área de trabalho, para não se misturarem depois.

Etapa 2: classificar os instrumentos por criticidade

Controlar todos os instrumentos no mesmo nível sai caro e lento. Por isso, muitas fábricas japonesas classificam os instrumentos pelo quanto afetam as decisões de aprovação do produto e mudam o método e a periodicidade de cada classe.

Figura 5: Exemplo de classes de criticidade

Quanto mais diretamente o instrumento decide aprovação ou reprovação, mais rigorosos são a rastreabilidade e os registros.

Classe A
Aprova/reprova na inspeção final ou de recebimentoMicrômetros da inspeção final, MMC, padrões de referência
Calibração externa (JCSS se necessário), registros rigorososComeçar com um intervalo mais curto e ajustar conforme os resultados
Classe B
Controle de processo e inspeção em processoTermômetros de processo, torquímetros, paquímetros de linha
Principalmente calibração interna, mais checagens diáriasCalibrar internamente contra um padrão superior e registrar os resultados no cadastro
Classe C
Apenas verificações aproximadasTermômetros para leituras aproximadas, réguas usadas como referência durante o setup
Identificados como "somente referência"Claramente não servem para decidir aprovação ou reprovação. Apenas checagem antes do uso

O número e os nomes das classes variam de empresa para empresa. Este é um exemplo geral.

Se você mantiver instrumentos não calibrados como os da Classe C, o pessoal do chão de fábrica precisa conseguir distingui-los à primeira vista. Um instrumento "somente referência" que acaba sendo usado na inspeção sem ninguém perceber é um dos apontamentos de auditoria mais comuns.

Olhe também a exatidão do instrumento em relação à tolerância do produto. Quanto mais apertadas as tolerâncias dimensionais e geométricas do desenho, mais um pequeno erro do instrumento pode inverter uma decisão de aprovação.

Etapa 3: decidir entre calibração interna e externa

Na calibração interna, usa-se um padrão de referência calibrado fora para calibrar os instrumentos do chão de fábrica na própria planta. Muitas fábricas mantêm blocos-padrão como padrão interno e calibram por conta própria o grande número de paquímetros e micrômetros.

A calibração interna economiza custo e tempo, mas a empresa passa a ter de controlar o procedimento escrito, a competência de quem calibra e as condições ambientais, como a temperatura. Os próprios padrões de referência continuam precisando de calibração externa regular, para que a cadeia de rastreabilidade não se rompa.

Calibração externa é enviar o instrumento ao fabricante ou a um laboratório de calibração. Os instrumentos da Classe A e tudo o que não dá para calibrar internamente seguem esse caminho. Se um cliente exigir certificados JCSS, ou se os certificados forem para um cliente fora do Japão, confirme antes de fazer o pedido se o prestador cobre aquela grandeza no JCSS e, quando necessário, no ILAC MRA.

Como definir e revisar a periodicidade de calibração

A etapa 4 é a que gera mais perguntas. O primeiro ponto a entender é que o JCSS não define intervalos de calibração. Quem usa o instrumento decide com que frequência calibrar.

A Associação Japonesa dos Fabricantes de Instrumentos de Medição Elétrica (JEMIMA) lembra que, pela ISO/IEC 17025, um certificado ou etiqueta de calibração não deve trazer recomendação de intervalo, a menos que o cliente tenha concordado. Portanto, "o laboratório disse um ano" não é um motivo válido. A sua empresa precisa de uma base própria para cada intervalo e deve ser capaz de explicá-la.

Definindo o intervalo inicial pelo risco

A referência internacional é o ILAC-G24 / OIML D 10, "Guidelines for the determination of recalibration intervals of measuring equipment" (diretrizes para determinar os intervalos de recalibração de equipamentos de medição, publicado em inglês). Ele diz que o intervalo inicial se baseia principalmente em uma avaliação de risco e lista os fatores a considerar.

Figura 6: Fatores para o intervalo inicial de calibração

Olhe para o instrumento, para como ele é usado e para a exatidão de que ele precisa.

Desgaste e deriva
InstrumentoA leitura tende a derivar com o uso? Inclui o envelhecimento do sensor.
Tipo e orientação do fabricante
InstrumentoProjeto e componentes, e o intervalo que o fabricante recomenda.
Dados de unidades semelhantes
InstrumentoResultados de calibração do mesmo modelo ou de modelos semelhantes, e dados publicados.
Frequência e severidade de uso
UsoCentenas de usos por dia ou poucos por mês? Risco de queda e impacto.
Ambiente e transporte
UsoCalor, umidade ou vibração? É muito carregado de um lado para o outro?
Checagens intermediárias
UsoÉ checado entre as calibrações? Esses resultados são estáveis?
Incerteza exigida
ExatidãoCom que exatidão ele precisa medir, em comparação com a tolerância do produto?
Risco de sair da tolerância
ExatidãoSe ele reprovar, quantos produtos e resultados são afetados?
Requisitos legais e do cliente
ExatidãoAlguma lei ou acordo com o cliente define o intervalo?

Com base nos fatores do item 5.1 do ILAC-G24:2022 / OIML D 10:2022. A lista inclui também itens como o treinamento do pessoal.

A diretriz também pede para equilibrar dois custos: intervalos mais curtos aumentam o custo de calibração, e intervalos mais longos aumentam o risco de as medições ficarem menos confiáveis. Ela recomenda calibrar equipamentos novos com mais frequência no início, para ver como se comportam. A abordagem usual é começar curto e estender o intervalo à medida que os dados se acumulam.

Os intervalos não precisam ser em tempo de calendário, como uma vez por ano. Eles também podem se basear em horas de uso ou número de usos, de modo parecido com a diferença entre manutenção baseada no tempo e manutenção baseada na condição (TBM e CBM).

Revisando a periodicidade com os dados de calibração

O ILAC-G24 não recomenda manter intervalos fixos, a menos que um documento normativo, como uma norma ou um método especificado, defina o intervalo. Ele descreve cinco métodos para revisar os intervalos com base nos resultados de calibração.

Figura 7: Cinco formas de revisar os intervalos de calibração

Nenhum método serve para todos os instrumentos. Escolha conforme o comportamento do instrumento.

Como funciona
Indicado para / cuidados
1. Escada (ajuste automático)
Se o erro na calibração está dentro de uma porcentagem definida da tolerância, estender ou manter o intervalo. Se não, encurtá-lo.
Simples e funciona para a maioria dos instrumentos. Não deixe os intervalos ficarem extremamente longos.
2. Carta de controle
Lançar os resultados de calibração numa carta de controle e calcular o intervalo a partir da tendência de deriva.
Para instrumentos que derivam com o tempo. Não serve para instrumentos sem deriva.
3. Tempo de uso
Basear o intervalo nas horas reais de uso, e não no tempo de calendário.
O número de calibrações e o custo acompanham o uso real. Inadequado para instrumentos que derivam parados na prateleira, e a próxima data é difícil de prever.
4. Verificação em serviço ("caixa-preta")
Checar com frequência os parâmetros principais com um dispositivo simples. Enviar para calibração completa se estiverem fora dos limites.
Maximiza a disponibilidade. Parâmetros que não são checados ainda podem falhar.
5. Outros métodos estatísticos
Analisar estatisticamente os dados de calibração de instrumentos individuais ou de grupos.
Útil quando já se acumulou dado suficiente.

Resumido do capítulo 6 do ILAC-G24:2022 / OIML D 10:2022.

Para fábricas pequenas e médias, o método da escada é o ponto de partida mais fácil. Por exemplo, um procedimento pode dizer: "Se o erro ficar dentro de metade da tolerância em três calibrações seguidas, estender o intervalo. Se ultrapassar a tolerância, encurtá-lo." Com uma regra assim por escrito, a decisão não muda quando muda o responsável. Defina você mesmo os limites de decisão para cada tipo ou classe de instrumento e escreva-os no procedimento.

O método da carta de controle lança no tempo o erro encontrado a cada calibração e prevê quando ele chegará à tolerância. Quem na qualidade já usa cartas de controle pode testá-lo primeiro em equipamentos de vida longa, como os padrões de referência.

O ILAC-G24 também espera checagens intermediárias entre as calibrações. Conferir o zero do micrômetro com um bloco-padrão antes do turno, ou conferir a balança com uma massa padrão, são exemplos típicos. Resultados estáveis nas checagens intermediárias também sustentam a extensão do intervalo.

Registros de calibração e etiquetas de situação

Micrômetro, relógio comparador e paquímetro sobre uma mesa, ao lado de uma pasta de registros

As etapas 5 e 6 acontecem a cada calibração. Numa auditoria, uma calibração sem decisão de aprovado/reprovado e sem registro é tratada como se nunca tivesse sido feita.

Etapa 5: julgar o resultado e etiquetar o instrumento

Quando o certificado volta de um laboratório externo, compare os valores com a sua própria tolerância e decida se aprova ou reprova. O certificado informa o erro e a incerteza. A decisão de aprovado ou reprovado é do usuário, com base nos critérios do próprio usuário.

Arquivar um certificado sem decisão não conta como verificação. Depois da decisão, coloque uma etiqueta de calibração no instrumento ou no estojo, para que a situação seja visível no chão de fábrica. Uma etiqueta com o número de identificação, a data da calibração e o próximo vencimento permite ao usuário perceber na hora um instrumento vencido. Marque os instrumentos que não podem ser usados com uma etiqueta separada e guarde-os longe dos liberados.

Etapa 6: o que guardar em cada registro de calibração

Os registros de calibração são evidência para a ISO 9001 e também o histórico de que você precisa para revisar os intervalos. O ILAC-G24 também pede que os resultados de calibração sejam reunidos e mantidos como dados históricos para decisões futuras sobre intervalos. Em cada calibração, guarde no mínimo:

  • Número de identificação do instrumento e data da calibração
  • Método (interno ou externo), quem executou ou qual laboratório, e o número de identificação do padrão de referência usado
  • Condições ambientais durante a calibração (temperatura etc.)
  • Valor como encontrado (as-found, antes do ajuste) e, se houve ajuste, valor como deixado (as-left)
  • Tolerância, decisão de aprovado/reprovado e quem decidiu
  • Se reprovou: a ação tomada e o resultado da investigação do impacto nas medições anteriores
  • Próximo vencimento e, se o intervalo mudou, o motivo

O item que mais costuma faltar é o valor como encontrado (調整前の値, chosei-mae no atai). Se você pede a um laboratório externo que ajuste além de calibrar, o certificado pode trazer só o valor como deixado. Sem o valor como encontrado, não dá para saber o quanto o instrumento tinha derivado desde a última calibração, e então não dá para julgar se as medições anteriores estavam corretas nem se o intervalo era adequado. Especifique os dados como encontrados ao fazer o pedido.

Um cadastro em papel ou em Excel funciona, mas, conforme o número de instrumentos cresce, acompanhar os vencimentos fica mais difícil. Um formato que consiga listar os instrumentos prestes a vencer ajuda a evitar que instrumentos vencidos continuem em uso.

O que fazer quando um instrumento reprova na calibração

Às vezes a calibração mostra que um instrumento está fora da tolerância. Se você simplesmente o ajusta e segue em frente, deixa de cumprir o que a ISO 9001 exige: verificar se os resultados de medição anteriores continuam válidos.

Figura 8: Fluxo de resposta para um instrumento fora da tolerância

Antes e depois de consertar o instrumento, verifique sempre o efeito nas decisões de aprovação anteriores.

1. Parar o uso e etiquetarEtiquetar como "proibido o uso" e retirar do chão de fábrica. Registrar o valor como encontrado.
Definir o escopo
2. Definir o período e os itens a retrocederNos cadastros e registros de inspeção, listar os produtos e lotes julgados com esse instrumento desde a última calibração aprovada.
Avaliar o impacto
3. Verificar se as decisões mudamComparar o erro com o valor medido e a tolerância de cada produto. Alguma aprovação poderia virar reprovação, ou o contrário?
Conforme necessário
Remedir ou selecionarRemedir o estoque e o estoque em processo com um instrumento bom
Contatar os clientesInformar e conversar se produtos já enviados puderem estar afetados
Revisar intervalo e controlesConsiderar um intervalo mais curto ou checagens intermediárias adicionais

Quão curto pode ser o período a retroceder depende da duração do intervalo e dos registros de checagem intermediária.

Os seus registros do dia a dia decidem até onde você precisa voltar. Com a data da última calibração, os registros de inspeção que usaram o instrumento e os resultados das checagens intermediárias, dá para limitar a retroação a "desde a última checagem intermediária sem problema". Sem eles, toda decisão desde a última calibração fica em dúvida, e a remedição e a seleção ficam muito maiores. Se produtos já enviados puderem ser afetados, pode ser necessário comunicar o cliente.

Organize esse comunicado em quatro pontos: causa, abrangência do impacto, contenção e ação corretiva para evitar a reincidência. O formato do relatório 8D é um bom modelo. Vá fundo também nas causas de gestão, como um intervalo longo demais ou a falta de um jeito simples de o operador avisar que derrubou um instrumento. É assim que se evita que a mesma falha volte.

Lacunas de calibração comuns em auditorias

Esses problemas têm menos a ver com sistemas que não existem e mais com pequenos deslizes da rotina.

  • Nenhum motivo para o intervalo. Tudo está em uma vez por ano e ninguém sabe explicar por quê. Um intervalo uniforme não é errado em si, mas o procedimento precisa dizer que ele foi escolhido considerando a criticidade e a frequência de uso. Um laço que estenda ou encurte os intervalos conforme os resultados também ajuda a controlar o custo.
  • Certificados arquivados sem decisão. O certificado é arquivado e o trabalho é dado como concluído. Coloque no procedimento uma etapa: preencher o campo de aprovado/reprovado assim que o certificado chegar e registrar quem decidiu.
  • Instrumentos fora do cadastro. Um paquímetro pessoal ou um instrumento emprestado de outro departamento acaba sendo usado na inspeção. Os auditores encontram isso com frequência no chão de fábrica. Faça valer a regra de que instrumento sem etiqueta de calibração não decide aprovação, e cadastre e calibre qualquer instrumento novo antes do primeiro uso.
  • Nenhuma calibração depois de queda ou reparo. Mesmo dentro do intervalo, um instrumento que caiu ou voltou de um reparo pode ter mudado. O requisito da ISO 9001 de proteger os instrumentos contra dano e deterioração aponta para o mesmo lado: confira ou calibre sem esperar o vencimento. Um ambiente em que as pessoas se sentem à vontade para avisar de uma queda, com um procedimento claro sobre o que acontece depois, pega mais desses casos.

Checklist: cadastro e registros de calibração

Use esta lista para conferir o seu próprio sistema antes de uma auditoria de cliente japonês, ou para analisar os registros de um fornecedor japonês.

  • Todo instrumento usado em decisões de aprovação ou de processo tem número de identificação e consta no cadastro
  • Cada instrumento tem uma classe de criticidade e um método de calibração (interna ou externa)
  • Cada intervalo tem uma base escrita, e o procedimento diz como os intervalos são estendidos ou encurtados
  • Os certificados mostram a rastreabilidade: o selo JCSS ou, no caso de calibração comum, um diagrama de rastreabilidade e os certificados dos padrões usados
  • Nos certificados usados fora do Japão, a marca combinada com o ILAC MRA está presente quando exigida
  • Cada certificado tem uma decisão de aprovado/reprovado frente à tolerância do próprio usuário, com o nome de quem decidiu
  • Os registros incluem os valores como encontrados, e não só os como deixados
  • As etiquetas nos instrumentos mostram o número de identificação, a data da calibração e o próximo vencimento; instrumentos "proibido o uso" e "somente referência" estão claramente marcados
  • A calibração interna tem procedimento, pessoal treinado, temperatura controlada e padrões de referência calibrados externamente
  • As checagens intermediárias estão definidas e registradas
  • Existe um processo escrito para resultados fora da tolerância, incluindo a investigação retroativa e a comunicação ao cliente

Perguntas para fazer a um fornecedor japonês sobre calibração

  1. Vocês podem compartilhar o cadastro de calibração (kosei daicho) dos instrumentos usados para inspecionar as nossas peças?
  2. Quais deles são calibrados sob o JCSS e quais por calibração comum? Para os de calibração comum, vocês podem fornecer o diagrama de rastreabilidade?
  3. Os certificados JCSS trazem a marca combinada com o ILAC MRA?
  4. Como vocês definiram cada periodicidade de calibração e como a revisam?
  5. Os seus registros guardam os valores como encontrados, antes do ajuste?
  6. Que checagens intermediárias vocês fazem entre as calibrações, e com que frequência?
  7. Se um instrumento usado nas nossas peças for encontrado fora da tolerância, até onde vocês retrocedem na investigação e quando nos avisarão?

Um pedido curto que você pode adaptar (traduza para o inglês ou o japonês, conforme o idioma do seu contato):

Assunto: Registros de calibração dos equipamentos de inspeção (código da peça XXXX)

Antes da nossa auditoria de fornecedor em [data], pedimos o envio do seguinte, para os instrumentos usados na inspeção final da peça XXXX: (1) o cadastro de calibração (kosei daicho) com periodicidades e vencimentos, (2) os certificados de calibração mais recentes, indicando quais são JCSS e se trazem a marca ILAC MRA, (3) os valores como encontrados da última calibração e (4) o procedimento de vocês para definir intervalos e tratar resultados fora da tolerância. Um resumo em inglês é suficiente se os originais estiverem em japonês.

Onde isto não se aplica

  • As classes de criticidade, as colunas do cadastro e as regras de intervalo diferem de empresa para empresa e de setor para setor. Os exemplos aqui são gerais, não uma norma.
  • Quando uma lei, um acordo com o cliente ou um método normalizado define um intervalo específico, esse intervalo vem primeiro. Confira também os requisitos do seu cliente.
  • A Lei de Metrologia do Japão (kentei e inspeção periódica) vale só no Japão. No Brasil, valem as regras de metrologia legal do Inmetro e dos Ipem.
  • Para certificados que vão para fora do Japão, procure a marca combinada com o ILAC MRA e confirme com o seu cliente que ele aceitará o certificado.

As equipes de garantia da qualidade e de controle da qualidade costumam liderar o controle de calibração, mas quem trabalha na produção e na manutenção e lida com instrumentos em processo também ganha ao saber como ele funciona, tanto para as checagens diárias quanto para decidir o que fazer quando algo parece errado. Um bom primeiro passo é abrir o seu próprio cadastro e conferir duas coisas: há um motivo escrito para cada intervalo e os valores como encontrados estão sendo registrados?

FAQ

Com que frequência os instrumentos de medição devem ser calibrados?

Não existe um intervalo legal único. Quem usa o instrumento o define com base no risco, como deriva, frequência de uso, ambiente e exatidão exigida. Muitas empresas adotam uma vez por ano para tudo, mas ainda precisam de um motivo escrito para esse intervalo.

O certificado de calibração informa a data da próxima calibração?

Em geral, não. Pela ISO/IEC 17025, um certificado ou etiqueta de calibração não deve recomendar um intervalo de calibração, a menos que o cliente tenha concordado. Quem define o intervalo é o usuário.

O que é um certificado de calibração JCSS?

É um certificado com o selo JCSS, emitido por um laboratório de calibração registrado sob a Lei de Metrologia do Japão, após avaliação do NITE conforme a ISO/IEC 17025. Ele demonstra a rastreabilidade aos padrões nacionais de medição do Japão sem um diagrama de rastreabilidade à parte.

A calibração JCSS é obrigatória?

Não. O JCSS é voluntário, e cada empresa decide se o usa. Se um cliente exigir certificados JCSS, ou se os certificados forem para um cliente fora do Japão, confira o escopo JCSS do prestador e a situação dele no ILAC MRA antes de fazer o pedido.

Qual é a diferença entre calibração e checagem diária?

A calibração compara o instrumento com um padrão de referência para achar o seu erro. A checagem diária é uma checagem intermediária entre as calibrações, feita com um dispositivo simples, como conferir o zero do micrômetro com um bloco-padrão antes do turno. Resultados estáveis nas checagens diárias também sustentam um intervalo mais longo.

Fontes

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Sobre a redação

Redação do MONOSCOPEFOUNDER & EDITOR

Cerca de dez anos de atuação em um fabricante de equipamentos industriais e em uma empresa de engenharia de plantas, com propostas, projeto e comissionamento de equipamentos, seguidos da migração para o marketing digital. Hoje presta consultoria web a fabricantes B2B, ajudando-os a explicar com clareza seus produtos e tecnologias. Possui as licenças nacionais japonesas de Energy Manager e de Engenheiro-Chefe de Eletricidade de Terceira Classe.

Mantém um blog de engenharia desde 2017 (mais de 500 artigos) e um canal no YouTube em japonês com cerca de 20 mil inscritos. Cada guia é escrito do ponto de vista do chão de fábrica japonês e conferido com as normas citadas.

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