Como ler desenho técnico japonês: JIS, 3º diedro e legenda

Chegou um desenho da matriz no Japão ou de um cliente japonês. As vistas parecem conhecidas, mas a legenda está em japonês, as cotas não têm unidade e alguns furos trazem uma anotação em katakana, como キリ. Para quem aprendeu desenho técnico no Brasil, ainda há outra armadilha: a posição das vistas pode estar invertida em relação ao que se viu no curso técnico.
A boa notícia é que os desenhos mecânicos japoneses seguem as normas JIS (Japanese Industrial Standards), principalmente a JIS B 0001 (desenho técnico mecânico), e usam o 3º diedro como regra. No Brasil, o 1º diedro é o método mais ensinado e o mais comum nos desenhos feitos aqui, por isso a troca de diedro é o primeiro ponto a conferir. A maior parte dos símbolos (Ø, R, rebaixo, profundidade) é a mesma das normas ISO e ABNT.
Este guia segue uma sequência prática de leitura: legenda, vistas, tipos de linha, cortes, símbolos de cota, indicação de furos e roscas e, por fim, tolerâncias. No final há uma lista de verificação, perguntas para enviar ao lado japonês e um modelo de e-mail.
Sumário
- Comece pela legenda
- 1º diedro ou 3º diedro: o que o Japão usa
- Tipos de linha e o que significam
- Cortes e hachuras
- Símbolos de cota: Ø, R, C, □ e outros
- Indicação de furos e roscas: kiri, zaguri, M10
- Tolerâncias, ajustes e acabamento superficial
- Uma ordem de leitura que pega os erros grandes
- Lista de verificação: antes de cotar, usinar ou inspecionar
- Perguntas para enviar ao lado japonês
- Limites deste guia
- Perguntas frequentes
- Fontes
Comece pela legenda
Antes de olhar qualquer vista, leia a legenda (表題欄, hyodairan) no canto inferior direito. Ela informa o que é a peça, a escala, o método de projeção e a revisão do desenho que está na sua mão. Sem essas informações, nenhuma cota faz sentido.
Dentro da margem, o desenho japonês costuma ter a área das vistas, as notas gerais, o quadro de revisões e a legenda. O leiaute muda de empresa para empresa, mas a legenda no canto inferior direito é comum à maioria, como nos desenhos brasileiros.
Confira a legenda, no canto inferior direito, antes de ler as vistas.
O leiaute e o nome dos campos variam conforme a empresa. A JIS B 0001 cita exemplos de itens da legenda.
A JIS B 0001 cita como itens da legenda, por exemplo, o número do desenho, o título, o nome da empresa, a assinatura do responsável, a data de elaboração, a escala e o método de projeção. Na prática, a maioria das empresas acrescenta o material, o tratamento superficial e o tratamento térmico.
Termos da legenda japonesa em português
A tabela abaixo reúne os campos que você mais vai encontrar. Cada empresa escreve de um jeito um pouco diferente, então use a tabela como ponto de partida.
| Japonês | Romaji | Português | O que conferir |
|---|---|---|---|
| 図番 / 図面番号 | zuban / zumen bango | Número do desenho | Bate com o pedido de compra e a cotação |
| 品名 / 図名 | hinmei / zumei | Nome da peça / título do desenho | É a peça que pediram para fabricar ou inspecionar |
| 材質 | zaishitsu | Material | Designação JIS (ex.: SUS304, A5052); defina o equivalente local antes de comprar a matéria-prima |
| 数量 | suryo | Quantidade | O que a quantidade significa (ex.: peças por conjunto); confira a quantidade do pedido separadamente |
| 表面処理 | hyomen shori | Tratamento superficial (zincagem, anodização, pintura) | Tipo de tratamento e espessura, se houver |
| 熱処理 | netsu shori | Tratamento térmico | Processo e dureza exigida |
| 尺度 | shakudo | Escala | Só referência; nunca meça no papel |
| 投影法 | toeiho | Método de projeção | 3º diedro (第三角法, dai-san-kakuho) ou 1º diedro (第一角法, dai-ikkaku-ho) |
| 単位 | tan'i | Unidade | Normalmente mm |
| 普通公差 | futsu kosa | Tolerâncias gerais | Norma e classe, ex.: JIS B 0405-m |
| 改訂 / 改訂記号 | kaitei / kaitei kigo | Revisão / código de revisão | Última revisão e o que mudou |
| 設計 / 製図 / 検図 / 承認 | sekkei / seizu / kenzu / shonin | Projetado / desenhado / verificado / aprovado | Todas as assinaturas ou carimbos presentes |
| 日付 | hizuke | Data | Costuma vir como ano/mês/dia (ex.: 2026/10/24), ao contrário do dia/mês/ano usado no Brasil |
| 注記 | chuki | Notas gerais | Instruções que valem para a peça inteira |
No campo de material, o desenho japonês costuma usar a designação JIS, como SUS304. No Brasil, o aço inoxidável normalmente é comprado pela designação AISI (304, 316L), mas a designação sozinha não comprova equivalência: confira norma do produto, composição, propriedades e condição de fornecimento, e só substitua com aprovação do cliente por escrito.
Confira a revisão primeiro
O código de revisão é fácil de passar despercebida. O número do desenho pode continuar o mesmo enquanto as cotas mudam de uma revisão para outra. Confirme que você tem a última revisão antes de cotar, usinar ou inspecionar; é o jeito mais simples de não fabricar peças por um desenho desatualizado.
Lembre também que o desenho é o meio pelo qual o projetista comunica a intenção do projeto. Cotas e símbolos foram escolhidos pensando na função e na montagem da peça, então, quando algo parecer estranho, pergunte antes de concluir que é erro.
Escala, números sem unidade e ponto decimal
Uma escala "1:2" indica que a peça está desenhada com metade do tamanho real. Os números do desenho são sempre as medidas reais, qualquer que seja a escala, por isso nunca tire medidas com régua sobre o papel.
As cotas também não trazem "mm". Pela JIS B 0001, os comprimentos são indicados normalmente em milímetros e sem o símbolo da unidade, então "50" quer dizer 50 mm. Os ângulos são dados, em geral, em graus.
Outro detalhe: o desenho japonês usa ponto como separador decimal (C0.5, Ra 1.6), enquanto nos desenhos brasileiros é comum a vírgula. Neste guia, os valores copiados do desenho aparecem com ponto e os valores do texto com vírgula; ao passar cotas para planilhas, ERP ou programas CNC, confira como cada sistema lê o separador.
1º diedro ou 3º diedro: o que o Japão usa
O Japão usa o 3º diedro. A JIS B 0001 determina que as vistas sejam desenhadas no 3º diedro, como nos Estados Unidos. No Brasil, o 1º diedro é o método tradicionalmente ensinado e o mais usado nos desenhos locais; os métodos de projeção são tratados na ABNT NBR 17006:2021, que substituiu a NBR 10067. Quem trabalha com desenhos da matriz japonesa e de clientes brasileiros ou europeus precisa conferir o diedro em cada folha.
No 3º diedro, a vista frontal é a referência. A vista superior fica acima dela e a vista lateral direita fica à direita. Ou seja, cada vista fica do mesmo lado de onde você olha a peça.
Um bloco com degrau e um furo passante vertical, visto de três direções.
As linhas pontilhadas claras só mostram o alinhamento entre as vistas (mesma largura e mesma altura). Elas não aparecem no desenho real.
A vista frontal é a que mais informa
A vista frontal não é necessariamente o lado que você chamaria de "frente" da peça. A JIS B 0001 diz que a vista que mostra a peça com mais clareza passa a ser a vista frontal (vista principal).
Em desenho de usinagem, a peça costuma aparecer na posição em que fica na maior parte das operações e, salvo motivo especial, deitada na horizontal. Um eixo torneado, por exemplo, normalmente é desenhado deitado.
Leia as vistas em conjunto
Nenhuma vista sozinha mostra a forma da peça. A vista frontal e a superior têm a mesma largura, e a frontal e a lateral direita têm a mesma altura, então siga cada linha de uma vista até a posição correspondente na outra.
Na Figura 2, o círculo da vista superior corresponde às linhas tracejadas da vista frontal e da lateral, ou seja, é um furo que atravessa o bloco de cima a baixo. Se a forma não ficar clara, um esboço rápido em perspectiva no papel ajuda bastante.
Hoje é comum as empresas japonesas gerarem o desenho 2D a partir do modelo 3D, e o modelo pode vir junto com o desenho. Pergunte qual dos dois prevalece se houver diferença entre eles.
Como diferenciar o 1º do 3º diedro
No 1º diedro, as vistas ficam invertidas: a vista superior vai abaixo da frontal e a lateral direita vai à esquerda. A JIS admite o 1º diedro em casos como quando o arranjo do 3º diedro não cabe bem na folha ou deixaria o desenho mais difícil de entender, e nesse caso o símbolo do 1º diedro deve aparecer na legenda ou perto dela.
Mesma peça, posições opostas.
Confira o símbolo do método de projeção (um tronco de cone visto de duas direções) na legenda ou perto dela.
Trocar o diedro gera uma peça espelhada, com furos e degraus do lado errado. Esse erro é mais provável justamente para quem está acostumado ao 1º diedro. Confira o símbolo de projeção em todo desenho, principalmente quando a mesma área recebe desenhos do Japão, de clientes brasileiros e de outros países, ou desenhos antigos.
Tipos de linha e o que significam
Cada linha de um desenho japonês tem um significado definido. A JIS B 0001 atribui um uso a cada combinação de tipo (contínua, tracejada, traço-ponto) e espessura, então a própria linha diz se ela é contorno, detalhe oculto ou linha de cota. No Brasil, o mesmo assunto é tratado pela ABNT NBR 16861:2020 (que substituiu a NBR 8403); a lógica é parecida, mas confira no desenho quando houver dúvida.
A JIS usa três espessuras (estreita, larga e extralarga), em geral na proporção 1:2:4. Para uma primeira leitura, basta lembrar que a linha contínua larga é o contorno visível e as linhas estreitas trazem informações de apoio.
O tipo e a espessura da linha dizem o que ela representa.
Seleção de usos comuns da JIS B 0001:2019. A linha oculta pode ser tracejada estreita ou larga.
No começo, é comum confundir a linha tracejada com a traço-ponto. A tracejada é uma sequência de traços curtos e iguais; a traço-ponto alterna traços longos e pontos. A tracejada mostra uma forma oculta; a traço-ponto mostra uma posição de centro, não uma forma.
A linha fantasma também engana. O que está desenhado em traço-dois-pontos não faz parte da peça deste desenho: mostra a peça que encaixa nela ou a posição que uma parte móvel alcança, então não é para usinar.
Cortes e hachuras

Quando a peça tem furos e canais por dentro, a vista externa fica cheia de linhas tracejadas sobrepostas. O corte resolve isso: a peça é cortada por um plano imaginário e a forma interna aparece exatamente como fica na superfície cortada.
A superfície cortada pode receber hachuras, linhas estreitas inclinadas e igualmente espaçadas. Em geral, a hachura indica o material atingido pelo plano de corte; a área sem hachura costuma ser vazia, com exceções como as peças da seção seguinte. Em outra vista, uma linha de corte identificada com letras como "A-A" mostra onde o corte foi feito.
Tipos de corte
A JIS B 0001 descreve vários tipos de corte. O desenhista escolhe aquele que mostra o detalhe interno necessário da forma mais simples:
- Corte total: a peça inteira é cortada pelo plano que melhor mostra sua forma básica
- Meio corte: em peça simétrica, metade aparece como vista externa e metade em corte
- Corte parcial: só a região de interesse é cortada, limitada por uma linha de ruptura
- Seção rebatida: a seção de um braço ou nervura é girada 90° e desenhada sobre a vista
- Corte composto: vários planos de corte reunidos em uma única vista em corte
O meio corte é comum em flanges e tampas com simetria axial. Com a linha de centro como divisória, uma única vista mostra a forma externa e os degraus internos.
Peças que não se cortam no sentido longitudinal
Em desenhos de conjunto, eixos e parafusos muitas vezes aparecem sem corte dentro de uma vista em corte. Não é esquecimento: a JIS B 0001 diz que eixos, pinos, parafusos, porcas, arruelas, chavetas, esferas de aço e peças semelhantes não são cortados no sentido longitudinal.
Cortar uma peça maciça como um eixo ou um parafuso não acrescenta informação. Nervuras, braços e dentes de engrenagem também não são cortados no sentido longitudinal, porque o corte deixaria a forma mais difícil de entender. Se uma peça da vista em corte está sem hachura, essa regra é o motivo mais provável.
Símbolos de cota: Ø, R, C, □ e outros
Um número sozinho não diz se é diâmetro ou raio. Quem diz é o símbolo antes do número: ele identifica o tipo de cota. A JIS chama esses símbolos de símbolos auxiliares de cota (寸法補助記号, sunpo hojo kigo).
O símbolo antes do número diz o que a cota mede.
Seleção dos símbolos auxiliares de cota da JIS B 0001:2019. Os símbolos de rebaixo, escareado e profundidade entraram na edição de 2010; desenhos antigos podem escrever a mesma coisa por extenso em japonês.
Os três que mais aparecem são φ, R e C. O desenho japonês muitas vezes escreve o diâmetro como φ (a letra grega fi), com o mesmo sentido do Ø dos desenhos ISO e ABNT. R é o raio de um arredondamento ou arco. C é o tamanho de um chanfro a 45°: C1 quer dizer chanfro a 45° de 1 mm a partir do canto. Essa notação pode confundir quem está acostumado a ver o chanfro cotado como "1 x 45°".
As notas gerais costumam trazer uma instrução como 指示なき角部はC0.5 (shiji naki kakubu wa C0.5), que quer dizer "chanfrar C0.5 todos os cantos sem indicação". Ela vale mesmo onde o canto não tem símbolo, por isso leia sempre as notas junto com as vistas.
O φ aparece tanto em vistas circulares quanto em elementos que, de lado, parecem retângulos. Um φ em um elemento com cara de retângulo indica que ele é um cilindro, o que permite ao desenhista economizar uma vista.
Indicação de furos e roscas: kiri, zaguri, M10

A indicação de furos coloca muita informação em pouco espaço e, por isso, é fácil de ler errado. Uma única linha de chamada pode trazer a quantidade de furos, o diâmetro, o processo e o diâmetro e a profundidade do rebaixo. Separe a indicação em partes e leia da esquerda para a direita.
Separando a linha em partes, o risco de erro cai.
Valores apenas ilustrativos. Desenhos antigos podem escrever a mesma indicação em japonês, ex.: 4-φ9キリ φ14深ザグリ深さ8.6.
Anotações japonesas de processo: kiri, rima, zaguri
A palavra em japonês depois do diâmetro do furo (em geral em katakana) é uma anotação curta de processo. A JIS B 0001 define estas indicações simplificadas:
| No desenho | Romaji | Significado |
|---|---|---|
| キリ | kiri | Furado com broca |
| リーマ | rima | Alargado (acabado com alargador) |
| 打ヌキ | uchinuki | Puncionado (furo feito na prensa) |
| イヌキ | inuki | Furo obtido na fundição, sem usinagem |
O furo feito só com broca (kiri) não tem grande precisão. O furo alargado é furado e depois acabado com alargador, para ter medida precisa e parede mais lisa, por isso o projetista o indica onde o ajuste importa, como no furo de um pino-guia.
O rebaixo (ザグリ, zaguri) é um degrau que dá assento plano à cabeça do parafuso ou evita que ela fique saliente. O rebaixo profundo (深ザグリ, fuka-zaguri) é fundo o bastante para embutir toda a cabeça do parafuso, e o escareado (皿ザグリ, sara-zaguri) é um rebaixo cônico para parafusos de cabeça chata.
Roscas: M10 x M10×1.25
Pela JIS B 0123 (designação de roscas), uma rosca métrica é escrita como "M", o diâmetro nominal, "×" e o passo. Na rosca grossa, cada diâmetro tem um único passo, por isso o passo normalmente é omitido.
A rosca M10 de passo normal (grossa) tem passo de 1,5 mm, então o desenho escreve só "M10". "M10×1.25" indica rosca de passo fino. As duas parecem quase iguais, mas um parafuso M10 não entra em um furo roscado M10×1.25, então confira o passo na compra dos fixadores e na montagem.
Também podem aparecer "LH" para rosca à esquerda e classes de tolerância como "6H" ou "6g": maiúscula para rosca interna, minúscula para rosca externa. A classe muitas vezes é omitida; nesse caso, vale a norma interna da empresa ou a especificação do cliente.
Tolerâncias, ajustes e acabamento superficial
Depois de entender a forma e o tamanho, a pergunta seguinte é com que precisão a peça precisa ser feita. O desenho indica os requisitos de precisão com símbolos e números: quanto uma cota pode variar, como furo e eixo se ajustam e quão lisa a superfície deve ficar.
Tolerância dimensional, ajuste e estado da superfície têm cada um sua notação.
Símbolos de estado da superfície conforme a JIS B 0031. Valores como Ra ficam sob o traço horizontal do símbolo ou perto dele.
Tolerâncias dimensionais e tolerâncias gerais
"50±0.1" quer dizer que qualquer medida entre 49,9 mm e 50,1 mm está aprovada. Nem toda cota tem tolerância indicada. Cotas sem tolerância individual seguem as tolerâncias gerais indicadas no desenho (普通公差, futsu kosa). Se a norma ou a classe não estiver indicada, confirme com o projetista.
A JIS B 0001 pede que o número da norma e a classe de tolerância sejam indicados uma vez, na legenda ou perto dela. As classes da JIS B 0405 (f, m, c, v) têm os mesmos nomes das classes da ISO 2768-1, publicada no Brasil como ABNT NBR ISO 2768-1. Mesmo assim, não troque uma norma pela outra por conta própria: use a norma citada no desenho e confirme com o cliente.
As tolerâncias geométricas (planeza, perpendicularidade, posição etc.) aparecem em quadros de tolerância. Elas têm regras próprias e ficam fora deste guia.
Ajustes: H7/g6
Uma letra e um número depois da cota, como em "φ10H7", são o código de ajuste da JIS B 0401, a versão japonesa da ISO 286. No Brasil, o sistema de tolerâncias e ajustes está na ABNT NBR 6158, elaborada com base na ISO 286; a lógica dos códigos é a mesma, mas confira os valores na tabela da norma citada no desenho. Letras maiúsculas são furos, minúsculas são eixos, e o número é o grau de tolerância: quanto maior o número, maior a tolerância.
Um furo φ10H7, por exemplo, deve ficar entre 10,000 mm e 10,015 mm. Um eixo φ10g6 deve ficar entre 9,986 mm e 9,995 mm. Combinados como "H7/g6", formam um ajuste com folga muito usado: o eixo desliza e sobra uma pequena folga.
Estado da superfície: Ra
O símbolo de rugosidade, parecido com um sinal de "visto", indica o estado da superfície (rugosidade e direção das estrias). A JIS B 0031 usa três variações: o símbolo básico, o símbolo com traço (remoção de material obrigatória) e o símbolo com círculo (sem remoção de material). "Ra 1.6" ao lado do símbolo especifica um requisito de rugosidade média aritmética de 1,6 µm; o critério de aceitação segue a norma e as demais indicações do desenho.
O símbolo pode trazer também o processo (como retificação) e a direção das estrias. O projetista costuma indicar valores menores nas superfícies funcionais, como superfícies de deslizamento e de vedação. Se aparecerem os triângulos antigos (▽▽▽), veja o guia sobre esses símbolos. Zincagem, pintura e tratamento térmico geralmente ficam nas notas.
Uma ordem de leitura que pega os erros grandes

Em resumo, leia do todo para os detalhes e da forma para a precisão. Quem começa pegando cotas soltas pode deixar passar os erros grandes, como o diedro trocado ou uma revisão desatualizada.
Do todo para os detalhes, da forma para a precisão.
O foco muda entre fabricação, inspeção e compras, mas os passos 01 a 03 valem para todos.
Cada área tende a olhar partes diferentes do desenho:
- Fabricação: processos e requisitos de precisão
- Inspeção: tolerâncias, estado da superfície e o que medir em cada ponto
- Compras: material, tratamento superficial, tipo de rosca e outras especificações que mudam o que se compra
Na inspeção, as tolerâncias do desenho viram os critérios de aceitação da inspeção de recebimento e da inspeção final.
O último passo importa tanto quanto o primeiro. Se um detalhe pode ser lido de duas formas, ou se você não sabe o que um símbolo significa, seguir por suposição pode gerar retrabalho ou uma peça nova. Perguntar ao projetista antes de fabricar costuma ser o caminho mais rápido e mais seguro.
Lista de verificação: antes de cotar, usinar ou inspecionar
- Número do desenho e revisão batem com o pedido de compra ou a solicitação de cotação
- Símbolo de projeção conferido (o 3º diedro é a regra na JIS; não leia no "automático" do 1º diedro)
- Unidade confirmada em milímetros
- Separador decimal tratado corretamente ao passar cotas para planilha, ERP ou CNC
- Material (材質): alternativa local conferida em norma, composição e propriedades, com a substituição aprovada por escrito pelo cliente
- Tratamento superficial (表面処理) e tratamento térmico (熱処理), incluindo espessura ou dureza
- Norma e classe das tolerâncias gerais (ex.: JIS B 0405-m)
- Notas gerais traduzidas, principalmente chanfros e cantos, como C0.5
- Indicação de furos separada em quantidade, diâmetro, processo, rebaixo e profundidade
- Passo da rosca confirmado (M10 grossa x M10×1.25 fina) e classe da rosca, se houver
- Códigos de ajuste (H7, g6) convertidos em limites pela tabela da JIS B 0401 / ISO 286
- Símbolos e valores de estado da superfície, incluindo os triângulos antigos
- Situação do modelo 3D: só referência, ou prevalece onde o desenho não diz nada?
Perguntas para enviar ao lado japonês
O desenho japonês pode citar normas internas da empresa que você não tem. Se algo não estiver claro, pergunte por escrito antes de começar. Perguntas úteis:
- Esta é a última revisão? O que mudou em relação à anterior?
- Se a legenda não informa, qual norma e classe de tolerâncias gerais devemos aplicar?
- Podemos usar um material brasileiro equivalente à designação JIS do desenho? Qual certificado vocês precisam?
- Para chanfros e cantos sem indicação, o que é aceitável?
- Quais normas internas (roscas, tratamento superficial, marcação) o desenho cita, e vocês podem enviá-las em inglês?
- Se o modelo 3D e o desenho não baterem, qual prevalece?
Muitos engenheiros no Japão leem melhor em inglês do que em português. Segue um modelo curto de e-mail em inglês para adaptar (o número do desenho e os itens são fictícios):
Subject: Questions on drawing ABC-1234 Rev. B Hello [Name], Thank you for sending drawing ABC-1234 Rev. B. Before we quote, could you confirm the following? 1. Is Rev. B the latest revision? 2. The drawing does not specify general tolerances. Which standard and tolerance class should we apply? 3. The specified material is SUS304. Would you approve AISI 304 sheet from a local supplier? Please confirm the required product standard, condition and inspection certificate. 4. Note 2 says "C0.5 for unspecified edges." Does this also apply to the internal edges of the φ9 holes? 5. Hole callout 4×φ9 キリ ⌴φ14 ↧8.6: please confirm the counterbore depth of 8.6 mm. Best regards, [Your name]
Limites deste guia
- Este guia segue a JIS B 0001:2019. Desenhos antigos podem usar notações anteriores, como indicações de furo escritas por extenso em japonês.
- O leiaute da legenda e o nome dos campos variam por empresa. A tabela de termos traz os campos mais comuns, não uma lista padronizada.
- As correspondências com normas ABNT citadas aqui são aproximadas. Não as trate como equivalência total; quando a peça depender disso, confirme com o cliente.
- Normas internas e especificações do cliente podem ser diferentes das regras gerais daqui. Se parecerem conflitar, pergunte ao cliente qual prevalece.
- Tolerâncias geométricas e simbologia de solda ficam fora deste guia.
- Equivalência de materiais, valores de tolerância e ajustes devem ser conferidos nas normas vigentes e acordados com o lado japonês antes da produção.
Perguntas frequentes
O desenho japonês é feito no 1º ou no 3º diedro?
No 3º diedro. A JIS B 0001 adota o 3º diedro como regra, como nos Estados Unidos. O 1º diedro, mais comum nos desenhos brasileiros, é admitido na JIS em casos como falta de espaço ou de clareza, e o símbolo do 1º diedro deve aparecer na legenda ou perto dela.
Qual é a unidade das cotas em um desenho japonês?
Milímetro. Pela JIS B 0001, os comprimentos são indicados normalmente em milímetros sem o símbolo da unidade, então "50" quer dizer 50 mm. Os ângulos, em geral, vêm em graus.
O que significa C1 no desenho japonês?
Um chanfro a 45° de 1 mm a partir do canto. Em muitos desenhos fora do Japão, o mesmo chanfro aparece como "1 x 45°".
O que significa キリ (kiri) no desenho?
Quer dizer que o furo é feito com broca. Outras anotações japonesas de processo são リーマ (alargado), 打ヌキ (puncionado) e イヌキ (bruto de fundição).
Qual é a diferença entre M10 e M10×1.25?
M10 é rosca grossa com passo de 1,5 mm; o passo não é escrito porque a rosca grossa tem um único passo por diâmetro. M10×1.25 é rosca fina com passo de 1,25 mm. As duas não são intercambiáveis.
Fontes
- Projeção, legenda, unidades, tipos de linha, cortes, símbolos de cota, anotações de processo, indicação de tolerâncias gerais: JIS B 0001:2019, desenho técnico mecânico (kikakurui.com, em japonês)
- Designação de roscas: JIS B 0123:1999 (kikakurui.com, em japonês)
- Passos de rosca métrica grossa e fina: Neji No1.com, tabela de roscas métricas (em japonês)
- Símbolos de estado da superfície: JIS B 0031:2003 (kikakurui.com, em japonês)
- Códigos de ajuste (maiúscula para furo, minúscula para eixo): MONO Juku, "O que é a tolerância de ajuste H7" (em japonês)
- Afastamentos de H7 e g6 (JIS B 0401): Tsubakimoto Chain, tabela de tolerâncias de ajuste (em japonês)
- Símbolos de rebaixo, escareado e profundidade incluídos em 2010: Otsuka Shokai, principais mudanças da JIS de desenho de 2010 (em japonês)
- Uso do 1º e do 3º diedro por região: Xometry Pro, first angle vs. third angle projection (em inglês)
- JIS B 0401-1:2016 baseada na ISO 286-1:2010: Catálogo AFNOR, JIS B 0401-1
- Normas ABNT de desenho técnico (NBR 17006 substitui a NBR 10067; NBR 16861 substitui a NBR 8403): UFRN, resumo das normas de desenho técnico; ABNT NBR 17006 (normas.com.br)
- Sistema de tolerâncias e ajustes no Brasil: ABNT NBR 6158 (normas.com.br)
- Tolerâncias gerais no Brasil: ABNT NBR ISO 2768-1 (normas.com.br)
Artigo original em japonêsEste guia se baseia em um artigo do MONOSCOPE escrito para leitores no Japão: 機械図面の読み方でつまずく疑問8選|三面図・線・記号を初心者向けに


